Publicado em Hora do parto em 12/05/2016

A “via de parto”, ou seja, definir se um parto será por via vaginal ou por cesárea, é um tema que tem estado em discussões acirradas recentemente. Neste texto tentaremos manter a discussão o máximo possível na esfera científica e na ética de cada procedimento.

O certo

Antes de falar da parte científica, o que é certo em relação à escolha de via de parto segundo as sociedades que cuidam das boas práticas em Obstetrícia?
No Brasil, a autonomia de escolha de via de parto da paciente é enaltecida por lei, dando o direito de escolha com base única na vontade própria da paciente. Essa postura é apoiada no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e internacionalmente por grande parte das associações, entre elas a mais importante do mundo, o Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia (ACOG). Isso é uma grande vitória da mulher, que tem autonomia sobre o corpo nesse momento tão importante.
Portanto, em caso de gravidez normal, quem deve decidir a via de parto é a mulher (desde que bem orientada pelo seu obstetra).

O parto vaginal (normal)

O parto vaginal, do ponto de vista médico-científico de avaliação de risco x benefício, deve ser sempre a primeira escolha, especialmente para gestantes que não tenham intercorrências no pré-natal. Ele é menos invasivo para mãe e bebê, garantindo recuperação mais rápida para a mulher. Muitos estudos mostram que os bebês que nascem de parto vaginal têm riscos menores de desenvolver desconforto respiratório logo após o parto.
Entretanto, deve-se tomar o cuidado de não confundir parto vaginal com parto em casa. Atualmente, as sociedades que regulamentam a obstetrícia no Brasil e em grande parte do mundo, baseadas em estudos, consideram que o parto em casa tem até 3 vezes mais taxas de óbitos neonatal do que em hospitais. É verdade que as taxas são baixas tanto para parto hospitalar quanto para parto domiciliar, mas um aumento dos óbitos não deve ser ignorado. O hospital ainda é o local mais seguro para se ter um bebê.

O parto cesárea

A cesárea, assim como o parto vaginal, é um procedimento extremamente seguro para mães e bebês. Quando realizada por escolha da mulher, a cirurgia deve ser feita após 39 semanas de gravidez, para diminuir o risco de prematuridade em um eventual erro no cálculo da idade gestacional.
Estudos mostram um risco de internação em UTI neonatal até 12 vezes maior em bebês que nascem de cesárea com 37 semanas em relação aos que nascem de parto normal. O risco cai para 2,9 quando a cesárea é feita com 39 semanas, ou seja, ainda assim é bem mais alto que quando comparado ao parto vaginal.
Para a mulher, além do fato de ser efetivamente uma cirurgia, o que aumenta riscos como infecção e hemorragias, a cesárea aumenta o risco de que em uma futura gravidez a placenta fique mal posicionada no útero, como nos casos de “placenta prévia”.
Com tudo isso, ainda a cesárea precisa ser valorizada. Primeiro porque, apesar de aumentar esses riscos, ela ainda é um dos procedimentos mais seguros que existem em medicina; segundo porque é provavelmente a cirurgia que mais salvou vidas na história da medicina. Quando bem indicada e feita no momento certo por escolha da mulher, é um procedimento extremamente seguro.

Conclusão

Durante minha vida profissional, muitas vezes fui questionado sobre a questão da via de parto e, após ter participado de tantos partos, posso dizer que atualmente ambas as vias são seguras. Não gosto nem que se diga “parto normal x cesárea”, porque considero que um procedimento é uma complementação do outro.
O parto normal deve ser a primeira opção para todo caso em que não haja contraindicação. Essa deve ser a postura médica. Mas a postura mais humana é sem dúvidas a recomendação vigente mais comum – autonomia e liberdade de escolha para a mulher bem orientada decidir sobre seu corpo e por qual via ela quer formar sua família.
Escolha por você. Independentemente do que sua amiga ou vizinha prefere. O melhor pra um pode não ser para o outro, e respeitar essa individualidade da mulher é um dos maiores avanços sociais que tivemos nos últimos 80 anos. Você tem liberdade de escolha. Use-a com sabedoria.

Fábio Aiello Padilla
CRM: 112.036
Ginecologista e Obstetra especialista em Reprodução Humana
Clínica Espaço M.