Publicado em Hora do parto em 03/10/2016

É comum encontrarmos artigos ou mesmo cursos de preparação para gestantes focados na questão dos “tipos de parto”, que geralmente acabam artificialmente classificados da seguinte forma:

  • Parto normal
  • Parto vaginal
  • Parto natural
  • Parto fórceps
  • Parto de cócoras
  • Parto na água
  • Parto humanizado
  • Parto sem dor
  • Parto Leboyer
  • Cesariana

Em primeiro lugar, devemos pensar o seguinte: é possível classificar partos antes que eles aconteçam?

Em segundo lugar: mesmo que fosse possível, é coerente achar que partos, nascimentos, bebês e mulheres possam ser classificados por tipos? Vamos fazer um balanço da história recente da obstetrícia, para entender por que e como os partos foram classificados.

A separação dos partos por tipos aconteceu em decorrência do nosso sistema obstétrico. Desde que o atendimento passou a ser hospitalar, feito exclusivamente pelos médicos, em macas horizontais, com as mulheres em posição ginecológica, a classificação ficou óbvia: parto normal ou cesariana. Não havia alternativa. Se a mulher não conseguia dar à luz nas condições padronizadas, ia para a cesárea.

As condições padronizadas sob as quais as mulheres deveriam tentar o parto normal eram: separação do companheiro ou qualquer acompanhante, salas de pré-parto coletivas sem qualquer privacidade, impossibilidade de livre movimentação, soro com hormônios para acelerar as contrações e, para encurtar o trabalho de parto, período expulsivo com a mulher deitada de costas, pernas amarradas a suportes, comandos para fazer força, enfermeiras empurrando a barriga da mulher, entre outras situações que variavam de serviço para serviço. Convém lembrar que em muitos hospitais do Brasil essa ainda é a regra, infelizmente, indo contra todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde.

Eventualmente o parto ficava difícil e havia a aplicação do fórceps alto (um instrumento que consiste em um par de colheres metálicas), que buscava a cabeça do bebê no canal de parto para puxá-lo para fora. Essas experiências eram traumáticas para a mãe e com frequência lesavam irreversivelmente o bebê. Era o parto fórceps ou ainda parto a ferro. Hoje em dia caiu em desuso e os médicos agora usam o “fórceps de alívio”, quando o bebê já está mais baixo no canal de parto. O uso rotineiro é desaconselhado, o que vale para qualquer intervenção médica em um processo natural e fisiológico.

A partir da década de 70, o mundo inteiro testemunhou inúmeros movimentos pelo resgate do parto como um evento social, afetivo e familiar. Aqui e ali surgiram obstetras preocupados com o excesso de medicalização e grupos de consumidoras que lutavam por melhores condições para dar à luz seus bebês.

Saiba um pouco mais sobre as novas técnicas para cada tipo de parto.

Parto na água

Ainda na França, na cidade de Pithiviers, Michel Odent, entre várias inovações dignas de mérito, começou a usar banheira com água quente para o conforto das parturientes. De lá para cá, o parto na água tem sido utilizado no mundo inteiro, em banheiras especiais ou improvisadas. Nas maternidades europeias, as banheiras são oferecidas às parturientes tanto para o alívio das dores do trabalho de parto como para o parto em si. Estudos científicos comprovam que o uso da água quente no trabalho de parto é um excelente coadjuvante no combate à tensão e à dor. No Brasil, pouquíssimas clínicas e médicos oferecem esse conforto às pacientes, infelizmente.

Parto de cócoras

Onde havia liberdade para movimentação das mulheres, o parto de cócoras ganhou terreno por ser mais rápido, mais cômodo para a mulher e mais saudável para o bebê, pois não se produzia mais a compressão de importantes vasos sanguíneos, o que acontece com a mulher deitada de costas. No Brasil, o Dr. Moysés Paciornik estudou comunidades indígenas e resgatou o parto verticalizado. Criou com seu filho, Dr. Cláudio Paciornik, uma cadeira para ser usada em hospitais que permitia várias posições para a mãe, sem comprometer o conforto do médico. Embora não haja necessidade de cadeiras especiais para que a mulher assuma essa posição, muitos profissionais afirmam que não fazem partos de cócoras porque no hospital não existe “a cadeira para parto de cócoras” à disposição.

Parto natural

Desde os anos 80, com a popularização das questões ecológicas e com os movimentos de resgate de uma vida mais saudável, natural e espiritualizada, muitas mulheres passaram a optar pelo parto natural, sem intervenções, sem anestesia e domiciliar em muitos casos. No entanto, o termo parto natural muitas vezes tem sido utilizado como sinônimo de parto vaginal, o que nem sempre é verdadeiro. Um parto vaginal com episiotomia, rompimento artificial da bolsa d’água, aceleração com soro, anestesia, raspagem dos pelos, entre outras intervenções, não pode ser classificado com o nome de parto natural.

Parto sem dor

O termo parto sem dor tem várias conotações. Os métodos psicoprofiláticos desenvolvidos especialmente nos Estados Unidos propunham uma espécie de treinamento às gestantes, baseado em técnicas respiratórias, de relaxamento, de concentração, entre outras. A ideia geral é que uma mulher bem preparada para o parto e bem acompanhada durante todo o processo terá muito menos dor do que uma mulher assustada e tensa. A ideia faz sentido, mas convém lembrar que a dor do parto continua existindo, agora sem o sofrimento causado por medo e tensão. Os métodos mais conhecidos são Bradley, Lamaze e Hypnobirth.

No Brasil, parto sem dor é comumente confundido com parto sob anestesia. Obviamente a anestesia bloqueia a dor, mas também diminui as sensações das pernas e do assoalho pélvico. Essas sensações são responsáveis pela força que a mulher faz na hora de “empurrar” o bebê para fora. Portanto, embora haja o bloqueio à dor, alguns efeitos indesejáveis, como a perda do controle sobre o processo do parto, podem ocorrer. Em muitos serviços médicos a anestesia é aplicada no final do trabalho de parto, já no período expulsivo, de modo que o período de dilatação não se passa sob efeito das drogas anestésicas. De qualquer modo, as formas naturais de se lidar com a dor deveriam ser largamente oferecidas e utilizadas antes de serem aplicados os métodos farmacológicos de bloqueio da dor.

Parto humanizado

Atualmente, um novo termo tem sido utilizado: parto humanizado. Como não houve uma formal definição do termo, ele é usado em todo tipo de circunstância. Para o Ministério da Saúde, parto humanizado significa o direito que toda gestante tem de passar por pelo menos 6 consultas de pré-natal e ter sua vaga garantida em um hospital na hora do parto. Para um grupo de médicos, significa permitir que o bebê fique sobre a barriga da mãe por alguns minutos após o parto, antes de ser levado para o berçário. Em alguns hospitais públicos, significa salas de parto individuais, presença de um acompanhante, alojamento conjunto, incentivo à amamentação, entre outros benefícios.

No mundo inteiro, no entanto, o que está se discutindo é: o atendimento centrado na mulher. Isso deveria ser o correto significado de parto humanizado. Se a mulher vai escolher dar à luz de cócoras ou na água, quanto tempo ela vai querer ficar com o bebê no colo após seu nascimento, quem vai estar em sua companhia, se ela vai querer se alimentar e beber líquidos, todas essas decisões deverão ser tomadas por ela, protagonista de seu próprio parto e dona de seu corpo. São as decisões informadas e baseadas em evidências científicas.

A decisão sobre o tipo de parto deve ser tomada independentemente da vontade do casal ou da mãe. O ideal é analisar o melhor cenário para que a saúde do bebê e da mãe seja preservada, mantendo o momento seguro e especial.

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