Publicado em Pais em 24/01/2017

Em algum momento da vida, a criança aprende a mentir, e é normal que isso aconteça. Quando ela mente pela primeira vez e tem um resultado satisfatório, a probabilidade de mentir de novo aumenta. Mas, se falhar, a frequência da mentira tem mais chances de diminuir. A mentira na infância pode ser até saudável, mas somente se a criança mentir e tão logo ser conscientizada de que a atitude não é esperada pelas pessoas e de que isso pode prejudicá-la.

Segundo o psicólogo Renato Gallo, a partir dos dois anos de idade as crianças já são capazes de mentir. “Nessa fase, elas não têm aparato cognitivo, que é a aquisição do conhecimento e da percepção, como raciocínio e memória, para mentiras complexas. Porém, já são capazes de organizar os seus pensamentos e se basear na imaginação. Na maioria das vezes, não conseguem separar a fantasia da realidade, criando situações que não aconteceram. É preciso identificar se a criança está realmente mentindo e manter a coerência nos atos e nas decisões diante das situações que envolvam a mentira. Faça a criança entender as consequências de seus atos, por mais simples que sejam”, aconselha.

E como identificar se o pequeno está realmente mentindo? Fique atenta aos sinais:

– Ele ri ou fica nervoso.

– Fica vermelho.

– Não “olha nos olhos”, desviando o olhar.

– Muda o tom de voz.

Para diminuir as ocorrências da “mentira”, os pais devem ficar atentos principalmente nas situações em que o filho tem algum desejo e necessita de alguma condição para que a sua vontade seja feita. “Se a criança mentir e ainda assim conseguir o que quer, ou seja, se os pais ignorarem o fato de ela ter mentido para alcançar o que deseja, a tendência de que ela continue mentindo é grande”, diz Renato.

O psicólogo aconselha que os pais precisam ter ações adequadas frente às mentiras cometidas pela criança. “Diante dos episódios, os pais devem ser firmes e evitar ao máximo as exceções. Caso ignorem o fato, a criança pode continuar usando a mentira para conseguir o que quer. O castigo não é a melhor solução, principalmente porque o filho pode se comportar e ser prestativo com a intenção de que os pais esqueçam o ocorrido no momento. Em vez disso, elogie o filho quando houver comportamentos adequados. Isso torna os bons valores mais evidentes e faz com que a criança busque mantê-los.”

O comportamento dos pais também é relevante para que a criança não adquira o costume de mentir. “Existem dois jeitos de influenciar as crianças a mentir: mentindo para elas ou tendo falta de comprometimento. Nesse último caso, os pais fazem a vontade dos filhos mesmo depois do episódio. Com isso, eles se tornam ainda mais vulneráveis a cair na mentira”, acrescenta Renato. Quando as mentiras tomam a frente da maioria das situações em casa, por motivos banais, e atrapalha o convívio na escolinha ou com familiares, o psicólogo aconselha: “é uma boa hora para buscar ajuda de um profissional.”

Fonte: Renato Gallo é psicólogo e atua como acompanhante terapêutico para crianças, jovens e adultos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), hiperatividade e Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD).