Publicado em Hora da Soneca em 15/12/2016

Os dados são alarmantes e servem para você prestar atenção no comportamento de seu filho. Muitas vezes somos nós quem está agindo errado.

Uma pesquisa despertou uma dúvida: por que 40% dos bebês até o segundo ano de vida sofrem com distúrbios do sono?

“Faz parte do desenvolvimento normal dos mecanismos do sono os despertares que, na maioria das vezes, são fisiológicos. Eles acontecem na transição dos estágios de sono, mas são vistos por alguns pais como perturbadores. A criança de qualquer idade sempre vai acordar algumas vezes durante o sono, entretanto, algumas expressam isto por meio de choro ou pedidos para serem atendidas, enquanto outras desenvolvem um jeito para voltar a dormir sem a necessidade de ajuda de outra pessoa”, explica a neuropediatra Márcia Lurdes de Cacia Pradella Hallinan, coordenadora do Setor de Crianças e Adolescentes do Instituto do Sono e professora da Disciplina de Medicina e Biologia do Sono da Unifesp.

O estudo vai mais além e diz que 30% das crianças maiores também sofrem com o problema. Noites mal dormidas para os pequenos prejudicam o crescimento e a capacidade de aprendizado e de atenção, influenciando drasticamente em seu comportamento. Isso sem contar que o sono é um termômetro para saber se o bebê não está doente. Noites bem dormidas significam que tudo está bem.

Para ajudar

E como os pais devem agir nestes casos? “A partir do quarto ou quinto mês de vida, pode-se iniciar um ritual de dormir que deve durar em torno de 15 minutos”, explica a neuropediatra.

Neste momento, cabe aos pais criar um ambiente propício para o sono, utilizando atividades calmas, cantos, cafunés e até mesmo oferecendo um amiguinho (por exemplo, um ursinho de pelúcia) para o bebê aprender a acariciar e manipular como forma de se acalmar.

Beijos de boa noite também são bem-vindos para selar o final daquele período de início do sono. “Este é o passo mais importante para ensinar o bebê a dormir e a voltar a dormir quando acordar sozinho no meio da noite”, comenta a especialista.

Já os mais crescidinhos

Crianças em idade pré-escolar também têm o distúrbio do sono. Neste caso, você pode continuar a seguir o ritual dos bebês, mas ligeiramente modificado em função da idade. Experimente contar histórias, ver livros com fotos…

Nesta idade, a disciplina com horários regulares para dormir é fundamental para a manutenção de um período de sono adequado”, acrescenta a neuropediatra.

Cabe aos pais também usar sempre exemplos e fatos positivos em relação ao sono, como dizer ao filho que ele precisa descansar bastante para brincar no outro dia, para crescer e para aprender coisas novas.

É importante também colocar limites no comportamento de seus filhos – inclusive na hora de ir para a cama. Determinar horário de dormir, deixar os filhos assistir à tevê até um certo horário e fazer a última refeição no horário correto são alguns pontos a ser observados e respeitados.

Criança sem limites ou com limites imprevisíveis se recusa a ficar pronta para dormir, não vai para a cama, além de fazer pedidos diversos, como: “tenho sede”, “quero ir ao banheiro”, “me dá mais um beijo de boa noite?”. E não é isso que você quer, né?

 

Pesadelo e terror noturnos

O padrão de sono da criança vai se alterando com o passar do tempo.

Durante os primeiros meses de vida, o sono do recém-nascido tem intensa ligação com a sensação de bem-estar e segurança, ou seja, pela saciedade alimentar e de cuidados básicos proporcionados, acordando apenas quando sente desconforto de alguma espécie. Está com fome, acorda. Satisfeita, dorme.

Com o amadurecimento, os momentos de vigília (ficar acordado) deixam de ter relação com a alimentação e passam a ser cada vez maiores, quase igualando as horas de sono por dia. A criança fica mais desperta e participante do mundo ao redor.

Não me refiro, neste momento, às tentativas de protelar a hora de dormir, ao desejo de não interromper as brincadeiras e os momentos familiares para ficar sozinho em seu quarto, em sua cama.

Entre três e seis anos, começam a surgir os pesadelos e terrores noturnos. Embora ambos sejam experiências que ocorrem durante o sono, as características de cada um são completamente diferentes. O pesadelo é muito comum e acontece durante o sono profundo, mais para o final da noite. A criança se movimenta, geme e acorda assustada e ansiosa, muitas vezes chorando. O conteúdo do pesadelo pode ser lembrado e narrado por ela, para que seus pais possam confortá-la. Eventualmente, a criança pode ter medo de voltar a dormir. Assim, os pais podem ficar com ela por um tempo, até que se acalme e o sono retorne. Mas devem sair antes que adormeça, avisando-a antes.

Se o pesadelo não é constante e seu conteúdo não é repetitivo, não é necessário tomar providência, salvo oferecer o suporte emocional. Porém, se ocorrer com certa frequência, provocando sofrimento na criança, pode estar relacionado a fatores emocionais e precisar de ajuda profissional para uma investigação mais minuciosa.

Por sua vez, o terror noturno ocorre raramente e geralmente acontece uma hora depois que a criança pegou no sono. Durante a experiência, ela grita, senta-se na cama com a respiração acelerada, movimenta-se como se estivesse se defendendo por vivenciar momentos de extremo e profundo terror, em um estado de pânico total. Não reconhece as pessoas que tentam acudi-la, mesmo os familiares mais próximos. Com o fim da experiência, que dura poucos minutos, volta a dormir como se nada tivesse acontecido. Ao acordar, não se recorda do fenômeno.

Os terrores noturnos podem voltar a se repetir por várias noites seguidas e, às vezes, na mesma noite. Eles alarmam muito mais os pais que a própria criança, pois esta não tem memória do ocorrido.

Eles desaparecem espontaneamente ou melhoram com a intervenção familiar, no sentido de refletir sobre se a criança está sendo exigida demais, pressionada, se o relacionamento da família está sendo adequado, compreensivo, flexível e amoroso.

Como a criança consegue expressar seus sentimentos e emoções por meio das brincadeiras, os pais devem observar seu comportamento e atitudes. Devem, também, abrir um espaço emocional para que possa falar sobre o que desejar, sem julgamento ou crítica. A criança se sentirá reconfortada, segura, compreendida e respeitada, sabendo que pode contar sempre com eles.

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